| Resumo: | Introdução: A hipercalemia é uma complicação frequente e potencialmente grave em pacientes com doença renal crônica (DRC), especialmente naqueles em uso de medicamentos que bloqueiam o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). O manejo clínico da hipercalemia depende tanto da compreensão da fisiopatologia renal, incluindo o controle tubular de potássio, o equilíbrio ácido-básico e as alterações estruturais da DRC, quanto da disponibilidade de intervenções farmacológicas eficazes. Entre essas intervenções, destaca-se o ciclossilicato de zircônio sódico (SZC), uma tecnologia recente que tem sido avaliada para incorporação em serviços públicos de saúde. No contexto da produção de evidências rápidas para apoiar decisões de gestão, as revisões rápidas seguem metodologia baseada nas recomendações atualizadas da Cochrane Rapid Reviews Methods Group. Este trabalho aplicou a ferramenta RoB 2, recomendada pela Cochrane, para avaliar o risco de viés de um ensaio clínico randomizado relevante (Elsayed et al., 2025), incluído em uma Nota Técnica Revisão Rápida do Núcleo de Avaliação de Tecnologia em Saúde (NATS), do Hospital Público Terciário do DF.
Métodos: Foi realizada uma revisão rápida estruturada segundo as diretrizes Cochrane (BMJ, 2024), incluindo formulação de pergunta PICO, busca em bases de dados e avaliação crítica do estudo incluído. O risco de viés foi analisado com a ferramenta Risk of Bias 2 (RoB 2), utilizando a planilha oficial da Cochrane para julgamento dos cinco domínios: randomização, desvios da intervenção, dados incompletos, mensuração dos desfechos e seleção dos resultados reportados. Além disso, foram revisados aspectos clínicos fundamentais sobre DRC, equilíbrio do potássio, fisiopatologia da hipercalemia e o mecanismo de ação do SZC, com base em diretrizes KDIGO, ClinicalKey e literatura especializada em farmacologia.
Resultados: O ensaio clínico randomizado que avaliou o uso do SZC versus SPS no manejo da hipercalemia em pacientes com DRC apresentou baixo risco de viés em todos os domínios da RoB 2, com adequada randomização, adesão satisfatória às intervenções e mensuração padronizada dos desfechos. Apesar disso, limitações importantes foram identificadas, tais como amostra reduzida (n=120), ausência de fase “cross-over”, não mensuração precisa da ingestão dietética de potássio, acompanhamento curto (8 semanas), ausência de quantificação do débito urinário residual e falta de monitoramento sistemático da frequência evacuatória, que pode influenciar a eliminação fecal de potássio. A revisão fisiopatológica evidenciou que alterações tubulares, redução da TFG, acidose metabólica e resistência à aldosterona contribuem para a hipercalemia na DRC, reforçando a relevância clínica de agentes quelantes como SZC e patiromer.
Conclusão: A aplicação da ferramenta RoB 2 demonstrou boa qualidade metodológica do estudo avaliado, sustentando a confiabilidade dos achados sobre a eficácia do SZC no controle da hipercalemia. Contudo, limitações estruturais do ensaio sugerem cautela ao generalizar seus resultados para populações mais amplas ou contextos clínicos distintos. A revisão rápida mostrou-se adequada para subsidiar decisões de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS), embora seu uso requeira rigor metodológico e clareza na definição do efeito de interesse. A integração entre evidência clínica, fisiopatologia e análise crítica do risco de viés contribuiu para uma avaliação robusta da tecnologia, apoiando decisões informadas em serviços públicos de saúde. |